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O que está por traz de uma fraturas de estresse? Especialista explica

publicado em 24 de setembro de 2018

Com o aumento do número de praticantes de esportes, especialmente os de endurance de alto volume como maratonas, triatlo, corrida de montanha, entre outras, as fraturas de estresse, que outrora eram quase exclusivamente de militares, têm se tornado lesões cada vez mais comuns entre esportistas, especialmente entre as mulheres. A participação feminina nos esportes cresceu enormemente nas últimas décadas. Hoje, as mulheres constituem entre 40% a 50% de todos os corredores de rua. Essa participação aumentada resultou em uma incidência maior de lesões por uso excessivo, dentre elas, as fraturas por estresse.

Quando o indivíduo treina, existe sempre um certo grau de destruição tecidual que, logo em seguida, durante o período de repouso (ou regenerativo) é compensado por produção de matriz extra celular. Em outras palavras, durante o repouso, o organismo refaz os tecidos, tendões, músculos e ossos, de maneira que se tornem mais fortes, preparando-os cada vez mais para o esporte que o atleta pratica.

Para que este ciclo de destruição/reconstrução seja convertido em ganho de performance, deve haver equilíbrio, que é chamado em medicina esportiva de super-compensação. Porém, quando existe desequilíbrio e a destruição é maior, pode-se desenvolver lesões. As fraturas de estresse podem se originar de um aumento muito rápido da intensidade, volume ou mesmo de uma mudança no tipo de treino.

Segundo alguns autores, para cada milha que um corredor percorre, mais de 110 toneladas da força devem ser absorvidas pelos pés. Os ossos não são feitos para absorver muita energia e os músculos agem como absorventes de choque adicionais. Mas, quando os músculos se tornam cansados e param de absorver a maioria da energia, as quantidades mais altas de choque vão para os ossos. O osso envolvido é submetido a uma carga excessiva sem o devido respeito aos princípios de progressão e repouso, e inicia-se uma fratura da parte mais interna do osso (trabéculas ósseas), que, se não tratado, pode progredir para uma fratura completa.

O quadro clínico clássico é de uma pessoa que iniciou um treino de endurance sem o auxílio de um treinador e, muitas vezes, sem ter feito uma avaliação pré-participa, que envolve exames laboratoriais, testes físicos funcionais, exames cardiológicos e exames de equilíbrio muscular como o isocinético. Além disso, tem uma história prévia de aumento súbito de volume de treino, seguido de dor na canela, no pé ou no quadril, que piora durante a prática esportiva e melhora ao repouso. Ao tentar manter o volume e intensidade do treino, a dor se agrava e passa a incapacitar o atleta para atividades do dia a dia como dirigir e utilizar escadas. O diagnóstico, como já descrito em outros artigos, é feito por métodos como ressonância magnética ou cintilografia óssea, que apresentam uma boa sensibilidade à lesao.

O grande desafio ao lidar com uma fratura por estresse está no retorno ao esporte. Infelizmente, após o tratamento incluindo o repouso e recursos da fisioterapia, ao retomar o treino, mesmo que de maniera gradual ocorre recidiva da lesão, frustrando o atleta e os profissionais da saúde envolvidos. Mas, por que isso acontece?

A fratura de estresse, na verdade, faz parte de uma síndrome maior provocada pelo overtrainning (treino acima dos limites fisicos). Fatores como a densidade mineral óssea, níveis hormonais que ligados ao overtraining como o indice testosterone/cortisol, carências vitamínicas, má alimentação, uso de determinadas medicações, estão por trás de uma baixa regeneração tecidual, levando a repetição dessas lesões. Em outras palavras: muitas vezes, o treino não é o “vilão”, mas sim o metabolismo do atleta. Isso explica porque as mulheres, que fisiologicamente possuem baixo nível de testosterona em relação aos homens, são mais sujeitas a estas lesões e porque fatores como irregularidades menstruais e determinados tipos de anticoncepcionais não podem nunca ser negligenciados em uma avaliação médica.

Sanadas as possíveis alterações metabólicas e funcionais (força e equilíbrio musculares, tipo de pisada), o retorno ao esporte deve ser gradual e multidisciplinar. Na minha prática clínica, mantenho o dialogo e programo o retorno do atleta junto a seu treinador, aumentando consensualmente o volume e intensidade e reprogramando sua preparação fisica direcionada. Esta planilha, obviamente, deve ser individualizada e embasada na modalidade esportiva, sexo, idade e objetivos.

Fonte: Globo Esporte