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Identificada relação entre autismo e câncer

publicado em 22 de agosto de 2013

13243572Ao estudarem dois problemas de saúde aparentemente não relacionados – o autismo e o câncer -, pesquisadores convergiram para uma inesperada descoberta. Algumas pessoas com autismo têm genes tumorais que aparentemente causam o transtorno cerebral.

Cerca de 10% das crianças com mutações em um gene chamado PTEN, que causa câncer de mama, cólon, tireoide e outros órgãos, também têm autismo, assim como metade das crianças com mutações genéticas que podem levar a alguns tipos de câncer no cérebro e no fígado e a grandes tumores em vários órgãos, incluindo o cérebro. Trata-se de um índice bem mais elevado do que a taxa de autismo na população em geral.

Segundo, Evan Eichler, professor de Ciência do Genoma da Universidade de Washington, a descoberta se aplica a uma pequena parcela de pessoas com autismo. Na maioria dos casos, a causa permanece misteriosa. E, como acontece com quase todos os distúrbios genéticos, nem todos com as mutações desenvolvem autismo ou câncer, ou outras doenças associadas com os genes, como a epilepsia, os cérebros dilatados e os tumores cerebrais benignos.

Como não existem animais que naturalmente iniciem um quadro de autismo, não há nenhuma maneira de analisar o que pode causar o distúrbio em cérebros em desenvolvimento e tampouco há cura. A correlação recentemente descoberta permitiu que os cientistas modificassem ratos geneticamente, provocando neles muitos sintomas do distúrbio humano. A análise de camundongos levou ao primeiro teste clínico de um possível tratamento para crianças com autismo, que receberam drogas para tratar tumores com a mesma base genética.

Richard Ewing, um menino de 10 anos de Nashville, Tennessee, nos Estados Unidos, tem uma forma de autismo causada por um gene tumoral. Ele está entre os voluntários do estudo. Seus pais, Alexandra e Rick Ewing, sabem que ele tem risco de desenvolver tumor no cérebro, coração, rim, pele e olhos. Porém, a má notícia foi minimizada com sua elegibilidade para o teste clínico, que acabou de começar.

– Existe uma grande diferença entre nós e o resto da comunidade autista. Recebemos um diagnóstico genético bastante genuíno – diz o pai.

Nem todos concordam que a descoberta é tão promissora.

– O autismo nessas crianças pode ser uma manifestação de um mau funcionamento do cérebro em geral – diz Steven McCarroll, geneticista de Harvard, acrescentando que “o fato de o autismo ser um dos muitos problemas neurológicos que surgem nesses pacientes não necessariamente nos diz algo relevante sobre os déficits sociais e de linguagem que são específicos do transtorno”.

No entanto, outros cientistas dizem que o trabalho está mudando a compreensão sobre o autismo e seu desenvolvimento. Assim como o câncer, o distúrbio envolve o crescimento irregular de células, neste caso, de neurônios.

– Nós não resolvemos tudo, só uma pequenina parte. Mas o pouco que resolvemos já foi muito esclarecedor – afirma o chefe do Centro de Genoma Molecular e Doenças Neuropsiquiátricas da Universidade da Califórnia, Jonathan Sebat.

Foi Charis Eng, geneticista da Clínica Cleveland, quem primeiro notou uma surpreendente incidência de autismo em crianças cujos pais tinham a mutação PTEN. Os pesquisadores viram que esta taxa de autismo era de 10%, cerca de 10 vezes maior do que o esperado.

No mesmo período, cientistas descobriram que outro distúrbio genético tinha uma probabilidade ainda maior de resultar em autismo: a esclerose tuberosa, que aumenta o risco de câncer no rim e no cérebro. Aproximadamente metade dos pacientes com esclerose tuberosa tinha autismo.

Embora o PTEN e os genes da esclerose tuberosa não sejam os mesmos, eles são parte de uma mesma rede de genes que freiam o crescimento celular. Desativando o PTEN ou um dos genes da esclerose tuberosa, esse freio é liberado. Um dos resultados disso pode ser câncer ou a presença de tumores. Outro pode ser uma anormalidade nas fibras nervosas ou o autismo.

O Dr. Mustafa Sahin, do Hospital Pediátrico de Boston, decidiu testar se as drogas usadas para tratar tumores causados pela mutação do gene da esclerose tuberosa também poderiam tratar o autismo em pessoas com a mesma mutação.

Ele começou com camundongos, removendo os genes da esclerose tuberosa de seu cerebelo. As fibras nervosas do cérebro do animal cresceram descontroladamente, e os ratos desenvolveram comportamentos anormais, que lembram o autismo. Começaram a se movimentar de modo repetitivo e a esfregar o próprio corpo constantemente, chegando a machucar a própria pele. Ao contrário de ratos normais, que preferem outros ratos a um objeto inanimado, as cobaias passaram a apreciar igualmente um copo de plástico.

A rapamicina, que tem como alvo o gene da esclerose tuberosa e bloqueia uma proteína envolvida na divisão celular, alterou os animais. Eles deixaram de se esfregar compulsivamente e de preferir o copo de plástico a outros ratos. Os animais tiverem um melhor desempenho em testes de aprendizagem e de memória, e o crescimento das fibras nervosas no cérebro foi controlado.

Agora Sahin oferece uma droga similar, a everolimus, para crianças autistas que têm a mutação genética associada à esclerose tuberosa. Richard está entre as crianças, que tomarão a droga ou um placebo por seis meses. O estudo deve ser concluído até dezembro de 2014.

FONTE:  THE NEW YORK TIMES NEWS SERVICE