Destaques, Notícias

Homens são as principais vítimas dos casos de câncer no pescoço

publicado em 9 de abril de 2014

Sete em cada dez pacientes que sofrem da doença são homens. Desses, 83% são ou foram fumantes, aponta pesquisa do Icesp (Instituto do Câncer do Estado de São Paulo). Para quem acredita que o contraste com o público feminino é gritante, o responsável pelo levantamento, o médico Marco Aurélio Kulcsar, chefe da Clínica da Cirurgia de Cabeça e Pescoço do Icesp, afirma que a diferença chegou a ser bem maior no passado.

“A relação chegou a ser de uma mulher com câncer para seis homens em décadas passadas. Ocorre que houve uma mudança de hábito do público feminino. Hoje elas fumam mais e, também, bebem mais”, explica o especialista.

Em 2013, o instituto atendeu cerca de 3,5 mil pessoas no setor de câncer de boca e pescoço. Aproximadamente 40% desses pacientes são vítimas de tumores na faringe ou na laringe e 60%, na boca. Outra conclusão do estudo: os casos são mais comuns em homens com mais de 50 anos. “É a somatória de uma vida sob exposição prolongada”, alerta Kulcsar.

ÁLCOOL – Outro vilão para a incidência do câncer de boca e de pescoço é o consumo excessivo de bebidas alcóolicas, explica o médico. “O álcool, assim como o tabaco, tem uma relação expressiva com a doença. Quase 60% dos nossos pacientes são etilistas”, salienta Kulcsar.

É o caso do mecânico aposentado Valtivir Lanheski, de 56 anos. Há aproximadamente um ano e meio, ele descobriu, por meio de um tratamento dentário, um câncer na faringe. Valtivir começou a fumar e a beber com 20 anos de idade. No pior estágio do vício, conta o paciente, ele chegou a ingerir até uma caixa de cerveja e fumar dois maços de cigarros (40 unicades) a cada dia. “Quando descobri a doença, resolvi parar com tudo e me cuidar. Meu tratamento está evoliuindo”, conta, otimista.

Análise

Marco Aurélio Kulcsar, oncologista e cirurgião do Icesp

Chance de cura pode chegar a 80% se descoberto na fase inicial, a chance de cura do câncer de boca e pescoço chega a 80%. Para isso, é importante adquirir o hábito de examinar a boca regularmente. Qualquer afta ou ferida que dure mais de 15 dias em pessoas que bebem ou fumam, já é motivo para se procurar um médico. O mesmo vale para a rouquidão e caroços no pescoço. Infelizmente, grande parte dos pacientes que atendemos já se encontra na fase avançada da doença. Por isso, é necessário que o Ministério da Saúde reforce as campanhas antitabagismo, até porque o cigarro e também o álcool não causam só câncer e o tratamento desses pacientes custa muito caro ao SUS.

Pacientes não acreditavam que desenvolveriam a doença

O metalúrgico aposentado Edinaldo Ferreira Nunes, de 63 anos, nunca imaginou ficar doente em consequência do câncer, mesmo tendo começado a fumar aos 10 anos e a beber aos 20. Em 2012, descobriu um câncer na laringe. E, recentemente, foi constatado um nódulo em seu pulmão.

“Sempre achamos que não vai acontecer com a gente. Tenho cinco filhos e sempre dou conselhos para eles. Infelizmente, um já fuma há dois anos”, conta.

O pedreiro Benedito de Casto, de 68 anos, foi tabagista durante 45. Parou há sete, quando ainda não tinha desenvolvido o tumor na próstata e, posteriormente, nódulos no pescoço.

“A bebida eu consegui largar com mais facilidade. Faz 35 anos que não ponho uma gota de álcool na boca. O cigarro acabei demorando mais”, afirma.

Sem se alongar na resposta, ele confirma que se arrepende de um dia ter colocado o primeiro cigarro na boca.

Médico oncologista do Icesp, Daniel Marin não alivia com os pacientes quando eles confessam ter passado por recaídas durante o tratamento. “Parar de fumar é difícil. Os pacientes chegam aqui fragilizados, talvez no pior momento de suas vidas. Mas nosso papel é esse: orientar.”

Fonte: Diário de São Paulo