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Desenho contra o câncer infantil

publicado em 27 de agosto de 2013

Aulas de desenho podem representar uma ferramenta importante para atenuar os efeitos   do tratamento contra o câncer infantil. Ao desenhar, as crianças portadoras da doença encontram uma forma para canalizar toda a energia característica dessa fase e podem sair um pouco do mundo cinza de remédios, reações adversas, depressão e incerteza, e mergulhar no colorido de lápis e canetas, e nas aventuras dos traços e curvas.

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Instituições como o Grupo de Apoio à Criança com Câncer (Gacc) e a Casa Durval Paiva trabalham com parceiros que viabilizam ações e atividades, externas ou nas próprias sedes, proporcionando momentos de socialização e superação para os meninos e meninas atendidos.

Uma dessas parcerias vem apresentando resultados positivos desde 2004. Todas as quintas-feiras, o professor de desenho Ricardo Tinoco abre as portas de seu ateliê, em Petrópolis, para crianças do Gacc e da Casa Durval Paiva, da capital e do interior.
“Antigamente as crianças vinham para Natal, para o tratamento na casa de apoio, e ficavam sem ter o que fazer. Tem a pedagoga, que ajuda nos estudos… Mas quando eles sabem que hoje tem a escola de desenho, eles vêm e ficam desenhando. Então esse desenhar ocupa a cabeça deles, faz a concentração e eles melhoram”, comenta Ricardo Tinoco, além de ter alunos particulares no ateliê, também atende crianças carentes da ONG  Aldeias Infantis SOS Brasil.

Assistida pela Casa Durval Paiva, Laura Thallyta, 9 anos, acreditava não ser capaz de acertar as lições das aulas de desenho. Hoje, ela diz estar muito feliz por estar semanalmente entre lápis e pincéis

Assistida pela Casa Durval Paiva, Laura Thallyta, 9 anos, acreditava não ser capaz de acertar as lições das aulas de desenho. Hoje, ela diz estar muito feliz por estar semanalmente entre lápis e pincéis

Cláudia Lima, coordenadora pegagógica do Grupo de Apoio à Criança com Câncer, enaltece a atitude de Ricardo Tinoco, ressalta a importância de sua ajuda de forma voluntária e diz perceber o quão importantes são as aulas para a auto-estima das crianças.
“Eles têm muito prazer em ir para as aulas, pois têm uma integração com outras crianças de outras instituições, e isso também é muito importante para eles. Considero esse trabalho de Ricardo rico e excelente para as crianças, pois através dele nós encontramos vários artistas, talento nas artes e no desenho. Por que lá o desenho é elaborado.”

Já Natividade Passos, coordenadora institucional do Gacc, acredita terem os momentos no ateliê o poder de afastar, pelo menos por uns instantes, o lado mais cruel do câncer. “nós procuramos minimizar isso. Uma estratégia é usar as artes, seja ela contação de história, pintura, desenho. E toda criança gosta mesmo de desenhar; é a cor, a criação! A gente tenta estimular a criatividade dessas crianças.”

Vida nos traços

O resultado das aulas de desenho podem ser comprovados quando as crianças retornam às atividades nas casas de apoio. Além de desenvolver a criatividade e o lado artístico, e ainda aliviar o peso do tratamento quimioterápico, desenhar ajuda a aumentar a auto-estima e a socializar os pequenos pacientes.

A coordenadora pedagógica do Grupo de Apoio à Criança com Câncer, Cláudia Lima, conta que as crianças chegam das aulas mostrando os desenhos para suas mães e ao pessoal da instituição, todos muito sempre animados e confiantes.

“Eles precisam muito disso. São crianças que saem daquele mundo delas, ficam num hospital em tratamento, longe da família, da escola, dos amigos… e nós procuramos, não só com Ricardo Tinoco, mas com todo o trabalho do setor pedagógico, trazer para elas a melhor forma, tudo o que for de bom, para essa auto-estima delas estar em cima”, comenta a pedagoga.

Já Karina Fontoura, pedagoga da Casa de Apoio Durval Paiva, diz perceber que as crianças saem mais alegres e com a imaginação aflorada, querendo repassar as lições aprendidas durante a aula. “É  um diferencial muito bom para o cognitivo, para a imaginação, com a questão da ludicidade também. Isso é muito importante para a criança.”

A pedagoga acredita serem as aulas capazes de aliviar bastante os problemas gerados pela doença e suas reações. “Dificuldades elas enfrentam todos os dias. Mas como nosso objetivo maior é realmente trazer esse ambiente pra elas e fazer com que esqueçam esse tratamento, ou que saibam vivenciá-lo de uma forma diferente, eu creio que isso é possível.”

OBRAS EXPOSTAS

Tanto o Gacc quanto a Casa de Apoio Durval Paiva trabalham com voluntários como parceiros. São pessoas que doam um pouco de seu tempo para ajudar essas instituições com podem, com o que têm a oferecer. A coordenadora institucional do Gacc, Natividade Passos, comenta haver vários artistas plásticos procurando-a para ministrar oficinas para as crianças, nos moldes do que é feito pelo professor Ricardo Tinoco. E o que fazer com o material produzido nessas aulas?

Natividade conta que os desenhos dos meninos ilustram os cartões de Natal distribuídos entre os cerca de 12 mil colaboradores do Gacc, ao invés de contratar uma agência de publicidade ou um artista plástico para realizar o trabalho.

O resultado das aulas e oficinas de desenhos também pode ser conferido nas exposições montadas pelas instituições em algumas datas comemorativas. Natividade informa que haverá uma mostra durante a Semana da Criança, na sede do Gacc e no IFRN. Ela conta ainda que no final do ano, durante a confraternização, os trabalhos também são expostos. “Geralmente a gente coloca em moldura que as crianças mesmas fazem. E a gente tenta vender para que eles se sintam estimulados.”

Da capital e do interior

Para as crianças que moram em Natal, ir às aulas de desenho é menos complicado do que para aquelas que moram no interior do Estado. Natividade Passos conta que tudo é feito para conciliar as adversidades no intuito que todos participem. Mas é preciso que os pais também incentivem, pois são várias pessoas trabalhando nesse objetivo.

“Uma aula de desenho, numa parceria externa, mexe com toda equipe multidisciplinar; porque aí nós temos que ter o convencimento da mãe sobre a importância daquela aula para a criança, a psicóloga que vai ajudar, da nossa nutricionista, que tem de estar atenta ao lanche que eles vão fazer lá, se leva o lanche ou não leva”, explica Natividade.

Depoimentos

Assistida pela Casa Durval Paiva de Apoio à Criança com Câncer, a pequena Laura Thallyta, 9 anos, pensava que não seria capaz de acertar o que o professor de desenho lhe passasse como lição. “Na primeira vez, achava que ia fazer errado, mas ele começou a me ensinar e eu comecei a pegar mais o desenho”, comenta ela, afirmando ainda gostar mais de desenhar  “coisas da natureza ou então bonecos infantis”.

Sem conseguir contar o número de desenhos já produzidos por ela nas aulas no ateliê de Ricardo Tinoco, Laura diz que algumas coisas mudaram na sua rotina. “Antes eu não gostava muito de desenhar. Mas depois de vir pra cá eu comecei a me acostumar. Aqui eu me sinto muito feliz e quando eu saio fico muito morgada. Todos ficam felizes aqui.”

Professor Ricardo Tinoco abre seu ateliê de desenho para crianças

Professor Ricardo Tinoco abre seu ateliê de desenho para crianças

Morando em Riacho da Cruz, região Oeste do Estado, Adriano Fernandes da Silva, 11 anos, enfrenta muitos quilômetros, horas de viagem, calor e cansaço para vir se tratar em Natal. Para relaxar e esquecer esses e outros obstáculos, só mesmo as aulas de desenho.

Adriano Fernandes, 11 anos, vem de Riacho da Cruz para as aulas

Adriano Fernandes, 11 anos, vem de Riacho da Cruz para as aulas

“Eu acho legal porque é um divertimento e para a gente não estar só no hospital tomando esses medicamentos. Quando eu saio daqui, sinto um pouco de falta, pois eu gosto muito de desenhar”, comenta Adriano, dizendo contar ao pai, tio e avós tudo o que produziu nas aulas.

Bate-Papo: Ricardo Tinoco – Professor de desenho

Como as aulas de desenho podem ajudar às crianças que estão se tratando de câncer?
Ajuda não só na questão da saúde. Eles se formam também como profissional. Nós temos alguns deles aqui que já estão ajudando na renda familiar. Mas enfim, o próprio desenho como terapia, quando eles se ocupam em desenhar, eles não ficam sentindo a dor da doença, o efeito dos medicamentos, as coisas que maltratam. No que eles desenham, eles se ocupam e tudo vai fluir mais fácil. A concentração no desenho desenvolve a mente, a coordenação, e, no caso deles que têm câncer, a medicação faz um efeito mais rápido — o tratamento com a quimioterapia que eles fazem. Tiveram alguns casos aqui na escola que o aluno não podia vi r para a aula porque estava fraco; e eles cogitaram que ao sair daqui eles retornavam com as defesas altas. E assim foram constatados alguns casos que ao retornar, feitos os exames, eles estavam com as defesas altas realmente.

Os desenhos seguem alguma pauta ou o tema é livre nas aulas?
O desenho é livre. Na hora que você fizer alguma coisa que seja obrigado não vai funcionar. Se você gosta de desenhar animais e boto você pra desenhar carro, o resultado não vai ser o mesmo jamais! Então, a criança escolhe a figura que quer desenhar, o material que ela quer trabalhar e a gente vai ensinar isso para ele. Nada funciona se você não fizer com o coração. Saiu uma matéria recentemente na Veja, sobre o Criança Esperança, que a foto é de um garoto daqui de Natal, da Casa Durval Paiva, o Janderson.

Como começou a parceria com as casas de apoio?
Nós estamos com essa parceria, aproximadamente, de 2004 para cá. A escola foi fundada em 2000. Mas era uma sociedade e eu não podia realizar trabalhos sociais porque meu sócio não permitia. Aí, em 2003, desfez-se a sociedade e comecei a atender a esse público. Aí, apareceu inclusive a Casa Durval Paiva também. E fizemos um concurso cujo os cinco primeiros seriam premiados para vir fazer aula. O desespero era tanto de ganhar o prêmio que demos um jeito de vir  30 alunos em um dia exclusivo só para eles aqui.

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Fonte: tribunadonorte.com.br