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Câncer na juventude: Desafios e superações

publicado em 13 de maio de 2013

São cada vez mais comuns na imprensa notícias sobre jovens atingidos pelo câncer: A garota de 22 anos em tratamento para o câncer de mama, o adolescente que descobriu uma neoplasia comum em pessoas acima dos 50 anos, o jovem na casa dos vinte lutando contra o câncer de testículo (…).

Embora não haja um grande número de estudos que apontem para o aumento da incidência do câncer entre jovens, algumas pesquisas publicadas recentemente relacionam o crescimento no número de casos a fatores comportamentais.

Estudo da Clinica Mayo, dos Estados Unidos, publicado no ano passado na Revista Mayo Clinic Proceedings, revelou que as taxas de melanoma (tipo mais grave de câncer de pele) vêm aumentando entre pessoas com menos de 40 anos e, segundo os achados da pesquisa, o quadro seria decorrente do uso de câmeras de bronzeamento naquele país.

Também, os tumores de boca e garganta estão, cada vez mais, afetando jovens – constataram uma série de levantamentos conduzidos no Brasil. Tais neoplasias, que costumavam atingir indivíduos acima de 50 anos (com histórico de alcoolismo e tabagismo), estariam batendo à porta dos jovens com mais frequência em decorrência de infecções pelo papiloma vírus humano (HPV). Estudo realizado pelo Hospital A.C. Camargo em 2012, apontou que 32% dos jovens pacientes com câncer de cabeça e pescoço tratados na instituição eram portadores do vírus.

Saiba mais sobre o HPV

O câncer de mama é outra neoplasia que está atingindo jovens mulheres com mais frequência. Dr. Ademar Lopes, vice-presidente do Hospital A.C. Camargo, relaciona o aumento de casos com o comportamento social da mulher contemporânea. “As mulheres estão casando mais tarde, tendo filhos mais velhas e em menor número. Há dados estatísticos que apontam que quanto menos se amamenta, maiores são os riscos do câncer de mama”.

Comportamento Jovem e Câncer

A mineira Kelly Barbosa, 24 anos, terminou há pouco tempo o tratamento do câncer de mama. O tumor foi diagnosticado em 2012, e, ainda com o diagnóstico em mãos, a jovem estudante de Comércio Exterior custou a acreditar na notícia.

“Como uma jovem como eu poderia ter câncer? Essa não é uma doença de pessoas mais velhas?”.

A incredulidade levou à garota à ação. Ainda durante o tratamento passou a multiplicar mensagens entre os jovens, nas redes sociais e em palestras, sobre a importância de repensar comportamentos nocivos à saúde.

“A gente estuda, trabalha, têm vida social atribulada. No meio de tudo disso, nos esquecemos de cuidar da saúde. Comemos mal, levamos vida sedentária e não pensamos na preservação do nosso corpo, que garantirá a vida saudável no futuro”.

De fato. Considerando-se que entre os fatores de risco a uma série de tipos de câncer estão o sedentarismo, a má alimentação, a obesidade e o HPV, por exemplo, o jovem brasileiro não está seguindo o ABC da prevenção.

Para o médico psiquiatra, colunista e escritor de livros sobre o comportamento de jovens e educação familiar, Içami Tiba, o declínio do valor ao afeto pode ser um dos fatores de risco a doenças entre jovens. “A vida sexual se inicia cada vez mais precocemente, e o afeto saiu de cena”.

Sensibilização para a prevenção – Dr. Tiba explica que o jovem tem uma forte tendência a negar o que não lhe interessa e deixar de lado aquilo que não entende!

“Por isso, acredito que a primeira e melhor forma de sensibilizar o jovem sobre os riscos do câncer, é informa-lo, com propriedade, que o câncer não mata se diagnosticado no início”.

Neste contexto, para o psiquiatra, o melhor porta-voz da informação seriam outros jovens. “Os jovens se identificam”. Falam a mesma língua. Seria muito mais eficiente, para a prevenção, uma comunicação entre os pares que aquela entre pais e filhos, por exemplo. Na opinião do psiquiatra, campanhas criadas pelo Ministério da Saúde, deveriam contar com jovens como interlocutores.

E é isso o que Kelly vem fazendo em Contagem! Transformando a percepção de outros jovens a respeito do câncer, através de sua experiência pessoal:

“A minha juventude é meu instrumento de choque e mobilização. É o meu caso que levo para perguntar a outras garotas se conhecem o seu corpo, se têm casos de câncer na família, se visitam o ginecologista ou mastologista com frequência”.

Os impactos na Vida do Jovem Paciente

Trabalho de manhã, almoço de vinte minutinhos, passada rápida no correio, jornada vespertina no escritório. Ônibus, metrô, trem, lanche no caminho. Uma, duas, três aulas na faculdade. Pronto? Não! Matéria pendente para estudar, amigo de longe para visitar.

A vida do jovem brasileiro, principalmente os residentes nas grandes cidades, acontece a mil por hora, em dias que parecem ter mais de 48 horas. Mas o diagnóstico de um câncer nessa fase da vida tende a interromper temporariamente o ciclo, deixando lacunas e gerando impactos.

A presidente do Instituto Oncoguia e psico-oncologista, Luciana Holtz, orienta os pacientes a afastarem-se o mínimo possível da ‘rota’ normal de sua vida, respeitando os limites do corpo, porém sem entregarem-se à doença.

“Com a rotina do tratamento, o câncer ocupa mesmo muito do dia do paciente. No entanto, é importante que se lembre de tudo o que vem além da doença, respeitando as demandas do corpo e as orientações médicas, mas sem deixar de viver. É possível trabalhar, trabalhe. É possível encontrar os amigos, faça isso. Mantenha-se em conexão com o que te dá prazer e afaste os seus pensamentos do câncer!”.

Kelly lembra que sentiu o peso da cessação na vida. Trancou a faculdade e interrompeu o relacionamento estreito com os parentes e amigos, já que com a queda na imunidade – quadro comum durante o tratamento – o médico lhe orientou-a resguarda-se. “Festas de família, cinema, teatro, vida profissional agitada… tudo isso teve de ser deixado de lado por um momento, e não foi fácil para mim”, lembra.

No entanto, ela encontrou as suas terapias ocupacionais. Antes do câncer, Kelly não se arriscava na cozinha, mas durante o tratamento, a fim de ocupar-se, colocou a mão na massa, nos cupcackes e nas comidas mineiras.

Hoje, diz, é uma cozinheira de mão cheia.

A estudante afirma que o carinho e o amor incondicionais da família, dos amigos e do namorado, foram fundamentais para o seu processo de tratamento. O namorado Cristiano, lembra, lhe ajudou a curar-se com “pílulas de amor”!

“Ele não saiu do meu lado. Raspou o cabelo comigo, me amparou nos momentos de maior fraqueza, chorou. Isso fortaleceu nosso amor. Hoje, planejamos até casar!”, diz.